Formatura e contemplações

No semestre passado eu me formei em Letras Português bacharel. Ainda estou cursando faculdade para terminar a graduação em Letras Inglês, então minha vida não mudou muito. Mas vou aproveitar a formatura para comentar minha experiência com tal curso.

Por que escolhi letras? Na verdade, essa nem foi a minha primeira opção. Eu tinha pensado em cursar pelo meu gosto por literatura, mas não queria me tornar professora e ouvi falar que eu assim não teria emprego. Acabei decidindo por desenho industrial, mas não tinha feito a prova específica, então deixei Letras como segunda opção tanto no PAS como vestibular. Pensei em pegar o curso de português ou inglês e acabei ficando com o primeiro, já que era a minha língua materna mesmo. Eu considerei não passar pela prova, mas não ser reprovada pela prova específica, o que aconteceu. Se não me engano, passei em primeiro lugar no curso tanto no PAS quanto no vestibular. Eu reprovei numa matéria no primeiro semestre, então isso não significa muito.

Eu nem sei quão bem eu fui no curso em nota. Tirei alguns SS, mas não sei se era pelo meu esforço ou era por que o professor dava nota fácil. Também só tranquei uma matéria nos oito semestres que levei pra me formar, não estando disposta a repetir matéria e atrasar a formatura, pegando com o professor que desse. Assim mantive uma média boa ou razoável, o que com que me preocupo um pouco pelo possível impacto na minha chance de conseguir bolsa.

Não sei sobre outros cursos, mas em Letras o bacharel é frequentemente definido como “aquele que não pode ser professor”. Falam de ser revisor, mas mal há uma carreira para tal profissão, e eu mal exercitei essa atividade. O que eu queria ser na vida é escritora, trabalhando talvez como revisora e tradutora para ajudar a viver, e talvez também tente ganhar dinheiro com desenhos. Mas o caminho para tal eu não faço ideia.

Dentro desse curso existe certa divisão em Letras entre literatura e linguística. De fato, são áreas distintas e frequentemente divididas em diferentes cursos mundo afora, sendo mais difícil dizer o que estudei em inglês. Uma é arte, outra uma ciência humana. Meu interesse inicial por Letras foi por causa da literatura, mas talvez eu tenha ganhado mais em relação à linguística. Teria mais conteúdo para aprender, e ainda que já tivesse algum interesse antes, aumentou.

Em literatura me peguei frequentemente escrevendo textos em que achava que estava escrevendo besteira. Não sei se isso foi por excessivo criticismo, opinião do meu “lado de exatas” ou se de fato escrevia besteiras.

Uma coisa que temi estar fazendo era repetir discurso. Ouvi professor dizer que você podia discordar dele tendo argumentos, mas é mais fácil só dizer algo semelhante com o que falou. Também tem a invenção de argumentos já que incertezas não rendem textos muito bons. Eu poderia escrever longos textos que usassem argumentos que eu nem concordava muito, me fazendo sentir que feria minha integridade intelectual.

Na linguística parece que há certa briga entre gerativismo e funcionalismo. Elas me parecem ter apenas focos distintos do que se contradizer. Enfim. Acho engraçado a ideia de que por ser de letras eu deveria saber mais coisa de gramática. Acho que passei mais tempo criticando gramática normativa, ou prescritiva, do que aprendendo ela, dependendo dos meus conhecimentos de ensino médio. Aprendi mais o tratamento de linguística, gramática, descritiva e afins.

Sobre a tal da revisão, eu não aprendi tanto em português. Tive uma matéria que eu teria aprendido a fazer textos oficial. Tive duas matérias com uma professora que merece posts inteiros sobre ela em que cheguei a fazer algumas correções, mas passava mais tempo com atividades aleatórias. Aprendi mais sobre textos em matérias de inglês.

Aliás, foi a primeira vez que estudei tão longe de casa desde que voltei pra Brasília, tirando o pouco de cursinho que tive. Eu estudei todo o ensino fundamental num colégio perto de casa e o ensino médio em outro, ambos colégios que dava pra chegar em menos de cinco minutos de caminhada. De carro dava pra chegar na UnB em pouco mais de vinte minutos, mas de ônibus dá geralmente mais de uma hora. Então tive de aprender a depender de ônibus, o que trouxe uma série de novos desafios.

Não querendo ou conseguindo comer no restaurante universitário e não querendo gastar dinheiro em outros restaurantes, acabei levando marmita. Seja frescura minha ou algo natural, poucos eram os alimentos que podia comer em temperatura ambiente, e passei a apreciar mais poder comer em casa.

Com os horários estranhos que pegava para poder pegar matéria, tive de ficar um bom tempo na UnB esperando pela próxima aula. Meu recanto se tornou a biblioteca, BCE, meu espaço favorito da universidade e aquele em que pude me sentir mais confortável. Pode se imaginar que eu não ache ela muita confortável.

Eu não sei o quanto o que tem naquela universidade é por ser pública, por ser universidade ou é um trem particular. Fato é que ela me lembrou aqueles filmes de velho-oeste, uma terra sem lei. Pichações, cheiro de maconha, mijo que espero que seja de gato e outras tantas coisas misteriosas. Além disso, a infraestrutura deixa a desejar, pra ser bem generosa. O que tem de bom naquele lugar é o mato. Letras não teria aqueles institutos bonitinhos que certas matérias tem, mais as de exatas, então tenho que me contentar com a maravilha que é o ICC. Tive muitas aulas nesse “prédio”, no BSA Sul, Pavilhão AT e JC e algumas no ainda mais maravilhoso BAES.

Outro drama é a questão de se informar, que talvez seja mais crítico em Letras que em alguns outros cursos. Não espere receber e-mail algum. Tive de adquirir o hábito de ter que ficar visitando o quadro de avisos nos primeiros dias de aula do semestre pra saber quando as aulas iam começar, se um dia começariam. Se o professor não vir não espere que alguém se digne a colocar um aviso na sala. Se tu perguntar alguma coisa em secretarias e afins querendo se informar sobre algo espere receber um “leia o edital”. E se tu quiser saber onde fica algo, boa sorte.

Quanto à questão social, vi vários espécimes curiosos. Apesar dos meus problemas em me socializar, até consegui meus amiguinhos, ou amigos suficientes para conseguir ter mais confiança em perguntar o que houve em uma aula que faltei, fazer dupla ou até ficar amigo no Facebook. Uma coisa interessante de universidade é a variedade de pessoas.

Críticas a parte, eu não me arrependo de ter cursado meu curso. Certamente ganhei coisas com ele. Ainda terei de conviver com essa universidade por no mínimo mais um semestre depois desse. Sobreviverei.

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